terça-feira, 8 de novembro de 2011

Linguística e minha aventura

"Hoje é dia de comemoração porque eu não preciso mais de usar as muletas!

Mas então, direto ao assunto, eu resolvi falar um pouco de linguística hoje. Toda terça-feira aqui na faculdade tem um fórum ou um devocional em que um professor é escolhido para dar uma palestra para todos os professores, alunos e funcionários. Hoje o discursante foi o chefe do departamento de linguística. Ele falou sobre diferenças em culturas e as falhas pragmáticas. Ele explicou que a pragmática é quando frases gramaticalmente corretas, que fora de contexto não fazem sentido algum, carregam um sentido intencional. Ele deu um ótimo exemplo e eu estou adaptando para o português:

Cíntia: "O telefone tá tocando."
Pedro: "Eu tô lavando o carro."
Cíntia: "Tudo bem."

Sem a pragmática esse trecho não faz sentido, mas essas três frases carregam um sentido intencional. Primeiro Cíntia indica que ela não quer atender o telefone e sugere que Pedro deve atender. Pedro indica que ele não pode no momento e então Cíntia indica que ela irá atender.

Mas o que achei mais interessante foi a falha pragmática e em específico a falha pragmática transcultural.  Exemplo de uma falha pragmática:

Imagine um casal dirigindo na estrada.
Cíntia: "Você tá com sede?"
Pedro: "Não."
Há um silêncio no carro até o casal chegar ao destino desejado. Aí Cíntia diz:
"Pedro, você tem que ser menos egocêntrico!"
Pedro não entende por que Cíntia faz tal comentário.

Nesse caso Cíntia sinaliza que ela está com sede, mas Pedro não entende esse sinal. Então o professor explicou que isso também ocorre entre culturas. Por exemplo, diferente culturas têm diferente autonomias pessoais, ou seja, quem tem poder para dizer para uma outra pessoa o que fazer. Em nações em que essa autonomia é menor (sendo os Estados Unidos a nação com menor autonomia segundo os estudos), as pessoas desenvolvem complexidades linguísticas para aliviar a expressão de poder. Em tais culturas, é mais comum dizer "Você se importaria de fechar a porta?" Nas culturas com maior expressão de poder (sendo o Brasil a nação com maior autonomia segundo os estudos), é mais comum dizer "Por favor, feche a porta". Note que essa segunda forma ainda assim é considerada educada; a única diferença é que uma é mais direta que a outra.

E o que isso têm a ver com a minha aventura? Eu quero aprender um pouco mais sobre essa falha transcultural. O professor explicou que a cultura anglo-americana com meios pragmáticos está ficando cada vez mais global. Muitos então pensam que esses meios pragmáticos são o padrão, o normal. E isso pode desenvolver uma superioridade cultural. Porém o professor explicou que podemos e devemos respeitar outras culturas. Para isso, precisamos desenvolver uma habilidade sofisticada para analisar o uso da língua e valores culturais conscientemente. E o poeta G.K. Chesterton resume mais ou menos o que eu sinto:
Vai morrendo mais um dia
Durante o qual tive mãos, olhos, ouvidos
E o vasto mundo ao meu redor;
E amanhã é outro dia.
Por que tenho direito a dois?

Um comentário:

  1. Gostei da ideia das palestras. Muito boa!
    E a pragmática é excelente mesmo! Antes dela, as pessoas gostavam de estudar frases, até textos, fechados em si mesmos.

    Gostei da abordagem cultural. Uma vez li sobre os casos de acidentes de avião e a questão da autoridade e da autonomia. Achei algo muito legal de se observar: mais acidentes quando o subordinado não tem coragem de falar ao chefe que há um problema.

    Beijos

    ResponderExcluir